Morre David Libeskind, autor do projeto do Conjunto Nacional em São Paulo.

Felipe Resk – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O arquiteto David Libeskind, cuja obra mais importante é o Conjunto Nacional, morreu na última quarta-feira, 9 de abril, em decorrência de infecção pulmonar, insuficiência cardiorrespiratória e complicações da Doença de Parkinson. Libeskind tinha 85 anos e deixa dois filhos, Marcelo e Cláudio Libeskind, além de netos.

Biografia
David Libeskind (Ponta Grossa PR 1928). Arquiteto, artista gráfico, ilustrador, pintor. Muda-se com a família para Belo Horizonte em 1929. Ainda no colégio, freqüenta o curso livre de desenho ministrado pelo pintor Guignard (1896 – 1962) na Escola do Parque. Entre 1947 e 1952, cursa arquitetura na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Aluno do professor Sylvio de Vasconcellos (1916 – 1979), é convidado por ele a trabalhar como estagiário no departamento estadual do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Sphan. Formado, muda-se para São Paulo, atraído pelo efervescente mercado imobiliário da cidade, onde passa a conviver com arquitetos e artistas importantes no “clubinho” do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB. Trabalhando sozinho no quarto da pensão em que mora, desenvolve alguns projetos de porte, como o Edifício São Miguel, o Posto de Puericultura para a Legião Brasileira de Assistência, ambos em 1953, o plano para o conjunto residencial dos funcionários da Refinaria de Petróleo União, em Capuava, Santo André, e o Hospital Infantil da Faculdade de Medicina de Sorocaba, ambos em 1954. Essas obras o credenciam, apesar da pouca idade, a realizar um projeto de grande envergadura em 1955: um edifício multifuncional ocupando o quadrilátero entre a avenida Paulista, a alameda Santos e as ruas Augusta e Padre João Manuel, o Conjunto Nacional. Sua proposta de uma lâmina vertical com habitação e escritórios sobre uma base comercial, ocupando toda a extensão do lote, é aceita pelo empresário José Tijurs, permitindo-lhe finalmente montar um escritório próprio para desenvolver o projeto.

Na segunda metade da década, trabalha como ilustrador e artista gráfico e realiza capas para a revista AD – Arquitetura e Decoração, entre outras. Em 1959, abre uma empresa de projeto, construção e incorporação com o engenheiro Simão Schaimberg, e constrói inúmeros edifícios residenciais no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Nos anos 1960, realiza obras públicas no interior do Estado, tais como o Fórum de Socorro, 1962, e o Grupo Escolar Santa Cuz do Rio Pardo, 1963. Assume, em 1970, o cargo de diretor de planejamento da Companhia Metropolitana de Habitação – Cohab, mas perde progressivamente a proeminência que tem nos anos 1950 e 1960 no cenário arquitetônico de São Paulo. Em paralelo à atividade de arquiteto, cultiva durante toda a vida o trabalho de pintor, e chega a participar de três edições da Bienal Internacional de São Paulo, em 1963, 1965 e 1967, e da exposição Tradição e Ruptura: Síntese de Arte e Cultura Brasileiras em 1984.

Comentário crítico
Autor de uma obra particularmente profícua nas décadas de 1950 e 1960, David Libeskind desenha e constrói um conjunto competente de residências particulares e edifícios habitacionais em São Paulo. Acima de tudo é o autor de uma obra-prima, que se destaca das demais tanto pela complexidade do programa – as exigências a que a construção precisa atender – quanto pela escala: o Conjunto Nacional, 1955, edifício multifuncional que ocupa o quadrilátero entre a avenida Paulista, a alameda Santos e as ruas Augusta e Padre João Manuel, no espigão central da cidade. Trata-se de uma lâmina com 80 metros de altura – com apartamentos de moradia e salas de escritórios -, suspensa sobre uma base comercial horizontal que ocupa a totalidade do quarteirão, cobrindo o passeio público em suas quatro faces. Esse projeto, que, além de revelar uma maturidade precoce do arquiteto, pode ser interpretado como a cristalização de um repertório dominante, naquele momento, no ambiente modernizante da cidade. Como uma antena receptora daqueles ideais, Libeskind realiza um projeto que talvez ultrapasse a sua própria capacidade de determinação consciente das coisas, pois, como observa o estudioso Fernando Viégas, “provavelmente, um arquiteto com 26 anos só conseguiria conceber um projeto desta qualidade se estivesse interpretando um desejo coletivo”.1

Em sua produção residencial, é nítida a influência do racionalismo despojado da arquitetura californiana, sobretudo da obra do arquiteto vienense, radicado nos Estados Unidos, Richard Neutra (1892 – 1970). É o que se nota, por exemplo, nas casas José Félix, em Goiânia, 1953, e Simão Schaimberg, 1955, Antônio Maurício Rocha, 1957, e José Kalil Skaf, 1958, em São Paulo, em que o tecnicismo industrial é suavizado por elementos da “tradição local”, como painéis de azulejo e jardins tropicais. Contudo, é evidente a presença de uma acentuada liberdade plástica em suas obras de maior porte, em que a idéia de “monumentalidade” se fez necessária. É o caso tanto do Grupo Escolar de Santa Cruz do Rio Pardo, 1963, em que o volume inclinado e anguloso do corpo principal lembra a Escola Júlia Kubitschek, 1951, de Oscar Niemeyer (1907), quanto do Conjunto Nacional, com destaque para o desenho elíptico da rampa central, e sua cobertura com um domo geodésico de grande dimensão, inspirado nas pesquisas de Richard Buckminster Fuller (1895 – 1983).

Niemeyer é, declaradamente, uma figura central para Libeskind. É graças ao impacto diante do Conjunto da Pampulha, 1940/1943, que o jovem aspirante a artista, freqüentador do curso livre de desenho ministrado pelo pintor Guignard (1896 – 1962), em Belo Horizonte, decide cursar arquitetura.Além disso, pode-se dizer que os projetos de Niemeyer para os edifícios Copan, em São Paulo, e Juscelino Kubitschek, em Belo Horizonte, ambos de 1951, são precursores da tipologia adotada no Conjunto Nacional, entendida não apenas como solução formal, mas também como determinante de um decidido caráter urbano, em que o edifício procura abrir-se para o espaço da cidade, adensar racionalmente a sua ocupação em altura, e oferecer espaços e equipamentos de uso coletivo – como estabelecimentos comerciais, telefones públicos, caixas eletrônicos, cafés e bancos para descanso. Como anota Viégas, se há, aqui, uma forte presença da heterogeneidade de programas das “Unidades de Habitação”, de Le Corbusier (1887 – 1965), é notável, por outro lado, uma contraposição ao desprezo de Le Corbusier pela rua.3Conjunto Nacional não é uma “máquina” autônoma e auto centrada, mas um equipamento que procura ativar o entorno urbano propondo uma continuidade interior dos seus espaços, pela criação de “ruas internas” ligadas às quatro ruas lindeiras, que se encontram em uma “praça central”, dotada de rampas, escadas rolantes e elevadores.

Fundamentalmente, o Conjunto Nacional impõe uma reformulação da ocupação fundiária da cidade em seus centros financeiros e comerciais, substituindo a fragmentação dos lotes estreitos e mesquinhos pela compreensão do quarteirão inteiro como unidade mínima a ser ocupada, a exemplo do que acontece em Manhattan desde o caso emblemático do Rockefeller Center, em 1926. Por essas razões, pode ser considerado uma edificação que se desdobra em intervenção urbanística, figurando parâmetros para uma cidade mais generosa e acolhedora.

 

Notas
1 VIÉGAS, Fernando Felippe. Conjunto Nacional: a construção do espigão central. 2003. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU/USP, São Paulo, 2003, p. 231.
2 Mesmo assim cultiva durante toda a vida, em paralelo à atividade de arquiteto, o trabalho de pintor, e chega a participar de três edições da Bienal Internacional de São Paulo, em 1963, 1965 e 1967, além da exposição Tradição e Ruptura: Síntese de Arte e Cultura Brasileiras, em 1984.
3 Cf. VIÉGAS, Fernando Felippe. Desenho de cidade: o projeto do Conjunto Nacional. Novos Estudos, n. 70. São Paulo: Cebrap, Novembro de 2004, p. 185.

 

Fonte: http://www.itaucultural.org.br/

 

Concurso – Centro Adminitrativo do Município de Belo Horizonte

Postado originalmente em concursosdeprojeto.org:

ConcursoCentroAdministrativo-BH

Objeto:

O presente concurso visa a selecionar as melhores Propostas de Arquitetura, em formato de Estudo Preliminar (Estudo Técnico Preliminar), apresentadas por pessoa física (individualmente ou em equipe, por meio da identificação de um coordenador) ou jurídica de direito privado, não integrantes da Administração Pública, Municipal que apresentem propostas de Estudo Preliminar para o Centro Administrativo Municipal.

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Ruy Ohtake passa Paulo Mendes em número de bens tombados

Postado originalmente em Biblioteca da FAUUSP:

Notícia do Blog Seres Urbanos – Folha de S. Paulo

Ruy Ohtake nem sempre foi um arquiteto de obras extravagantes e coloridas. Têm sua assinatura uma série de residências de concreto aparente austeras e racionais, alinhadas com propostas do modernismo arquitetônico que vigorou até meados dos anos 1970.

Pois é a produção dessa fase brutalista de Ohtake que recebe agora o mais alto grau de reconhecimento da cidade de São Paulo. Seis casas projetadas pelo arquiteto foram tombadas, sem alarde, em dezembro do ano passado e estão protegidas contra alterações.

Com a decisão, Ohtake ultrapassa Paulo Mendes da Rocha em número de imóveis tombados em São Paulo: sete contra seis do prêmio Pritzker (contando a intervenção de Ruy no palacete Conde de Sarzedas e a de Paulo Mendes na Pinacoteca). São os arquitetos vivos com mais obras protegidas na cidade.

Tudo indica que Ohtake também é campeão entre os modernos…

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Adeus, Paulo Freire

Postado originalmente em Dinâmica de Bruto:

adeus_freire

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Manifestação em defesa da Arquitetura e Engenharia

 

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