O mundo é dos espertos?


Você é arquiteto ou arquiteta. O momento não é favorável, poucos clientes, mercado retraído. Surge uma boa oportunidade de trabalho e você se anima. O cliente te procura.

— Olá, arquiteta! Tudo bem? Preciso de você. Vou fazer uma casa de três quartos, uns 300m2. Estou com muita pressa de construir. 

— Claro! Vamos lá. Como posso ajudar?

— Bem, como temos aquele outro projeto grande em andamento, pensei que você poderia me dar uma força com isso. Faça um estudo, só uma planta de uma casa nesse tamanho. Pode ser um projeto que você já tenha.

— Mas tem que ser feito um projeto específico, com a tua cara, para o teu terreno. Onde fica?

— Ah, é num condomínio, nem precisa aprovar. Aliás, nem precisa registrar no CAU, CREA. 

— Meu senhor, o registro do projeto é um dever legal do arquiteto. Ele comprova minha autoria. Não registrar o serviço não é uma opção. Inclusive, posso ser denunciada no CAU por isso. Para quando você precisa do projeto?

— Me faz uma planta só. Pode me mandar amanhã. Eu só preciso da planta para já fazer as fundações, depois você termina. Te dou mais dez dias para terminar o projeto.

— Não é assim que funciona. Um projeto bem feito leva tempo. Eu preciso saber das suas necessidades, pensar na solução mais adequada.

— Nãão, basta uma plantinha.

— Não trabalho assim. 

— Tá sobrando cliente? Recusando serviço assim. Tô querendo te ajudar. Eu consigo rapidinho outro arquiteto que faça isso. 

— Infelizmente você tá certo. Consegue mesmo.

— Então você vai fazer?

— Não. Infelizmente, tem colegas que se sujeitam a isso, comprometendo a reputação, colocando seu dinheiro e sua segurança em risco. Já ouviu falar no barato que sai caro? Sabe quanto custa um projeto? De 5% a 10% do valor da obra. Sabe em quanto um mau projeto impacta no custo final da sua obra? 30%. É só fazer as contas. Você acha que está economizando. Acha que está sendo esperto. Acha que isso vai te fazer ganhar tempo, mas só com o correto planejamento, sua obra terá um cronograma e um orçamento real, enxuto. Entende?

— …

— Alô! Alô?

E lá se foi um possível cliente. Ainda bem. Não se sujeite ao “mercado”. Nem sempre ele está certo. Não é porque alguém se sujeita a isso que você também tem que fazê-lo. Nós, arquitetos e urbanistas, temos um dever com a sociedade, com a profissão, com nosso cliente e principalmente com a nossa consciência. Faça o certo, sempre. Até que o errado se mostre como de fato é: um erro. A sociedade só vai valorizar nossa profissão quando entenderem ondeai de dificuldade é de responsabilidade por trás do que fazemos. 

Ah, esse diálogo se baseia numa história real. Na verdade em várias. A arquiteta? Não perdeu um cliente. Ganhou preciosas horas de sono. O sono da consciência tranquila.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s