O fim?

Nesta semana 10 orientandos meus concluíram sua jornada no curso de arquitetura e urbanismo da Unip, campus Brasília, apresentando com êxito seus trabalhos finais em nossa banca. Coincidentemente, após alguns percalços que até tornei públicos neste blog no final do semestre passado, estou completando 5 anos como professor universitário, também me “formando” junto com meus alunos.

Meus colegas e professores mais experientes devem ter passado por isso inúmeras vezes. Vi esta turma entrar no curso, e agora, participo do fechamento desta etapa. É uma sensação intensa, de dever cumprido. Saber que eu e meus colegas professores faremos parte da história destas pessoas é gratificante.

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Ao me tornar professor, graças ao convite do meu amigo professor Eduardo Pereira, sempre tive em mente ser um facilitador. Procurei reunir modestamente as qualidades didáticas que encontrei em grandes mestre que tive, como Érico Weidle, Frederico Flósculo, Jacaré, Cláudio Queiroz, Sylvia Ficher, Coutinho, Frederico Holanda, entre outros, aliadas ao meu jeito meio maluco de ser. Sempre encarei meus alunos como futuros colegas de trabalho. Neste aspecto, achei fundamental a experiência de ter meu escritório desde que me formei, já que dou aula em disciplinas de projeto.

Diferentemente de uma universidade pública, lecionar em uma instituição privada traz algumas peculiaridades que acabam por interferir na maneira como se ensina, e consequentemente como se aprende. Talvez a maior lembrança que tenho da UnB seja a troca de experiências e informações entre os alunos. Como passávamos o dia na faculdade (no meu caso, 24h, literalmente), respirávamos arquitetura o tempo todo. Num curso privado, temos 4 horas para passar tudo, em salas convencionais, com quase nenhum convívio entre as turmas. Temos que lutar constantemente para fugir da imagem do “aluno-cliente”, que paga uma mensalidade e recebe um “serviço”. Me desculpem pelo romantismo, mas quem presta serviço é a instituição. Ser professor é quase um sacerdócio, e sempre deixei claro isso para meus alunos. Sem falar que o futuro arquiteto egresso de um curso particular tem, de cara, que quebrar esse preconceito que o próprio mercado institui.

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Neste semestre tivemos excelentes trabalhos, que mostraram uma maturidade que de certo modo me surpreendeu. Um verdadeiro divisor de águas na história da instituição. Uma turma que se uniu, dividiu conhecimento, esbanjou cooperação. Um verdadeiro trabalho de equipe numa etapa tradicionalmente solitária. Que este espírito coletivo continue na vida profissional.

Uma das principais qualidades esperadas num bom profissional é saber trabalhar em grupo. Identificar expertises, compensar deficiências, dividir para conquistar. Em um mercado onde é comum a formação de equipes multi-disciplinares temos que saber trabalhar o espírito coletivo. Sempre repito, por exemplo, que a tradicional (e besta) rixa entre engenheiros e arquitetos é motivada por maus profissionais. Engenheiro tem birra de arquiteto ruim, assim como nós arquitetos temos certa resistência a engenheiros que eventualmente não entendem nosso verdadeiro papel nessa cadeia de produção.

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Quanto aos meus ex-alunos e agora colegas, só posso desejar sucesso, e que honrem esta profissão tão linda, que me faz tão feliz. Talvez uma das principais características do arquiteto é a paixão incondicional pelo trabalho. É tão divertido projetar que às vezes temos que nos policiar para não trocar nossos momentos de lazer por mais umas horinhas de projeto. Acordamos e dormimos arquitetos (e às vezes sonhamos com nossos projetos). É uma profissão intensa, envolvente, apaixonante e longeva. Talvez este seja o segredo, a “fonte da juventude”. Não damos sossego para nosso cérebro. Caros alunos, estou muito orgulhoso de vocês. Este é só o começo.

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Contos de um daltônico

Este post fez sucesso. Publicado originalmente em 30.10.10

Certa noite, lá pelo segundo semestre da faculdade, estava eu fazendo meu trabalho de Desenho e Plástica II sozinho na FAU, de madrugada, com minha caixa de lápis de cor aquarelada, 40 cores, importada, um show. Eu sabia quais eram as cores porque decorei a posição dos lápis na caixa. Os azuis no começo, depois os verdes, amarelos, laranjas e assim por diante.
O trabalho consistia em desenhar vários tipos de vegetação, devidamente coloridos. De repente, esbarro acidentalmente e a caixa vai pro chão. 4h da manhã. O trabalho era pra ser entregue no dia seguinte. Respirei fundo, juntei os lápis do chão e comecei a colorir meu trabalho, sem medo de ser feliz. E tome grama laranja, folha amarela e céu roxo. No dia seguinte, apesar dos apelos dos meus caros colegas, temerosos pelo trauma que a avaliação da professora pudesse causar neste futuro arquiteto, entreguei os desenhos.

Dias depois, qual não foi minha surpresa: nota 9,0! Segundo a professora, eu coloquei a minha “verdade” nos desenhos. Reproduzi as cores conforme eu enxergava. Devia estar uma “beleza” o trabalho, mas o resultado foi o início do fim de um medo que poderia permear todo o meu curso. É claro que não dá pra fazer isso com uma casa, ou com um ambiente, mas a moral da história é: Não importa que cor você enxergue, sempre vai ter algum maluco que concorde contigo!

Como é bom ser estudante!

Inspirado num ótimo post do blog thinkarchitect.wordpress.com

Caro pupilo, estudante de arquitetura e urbanismo, aluno meu ou não. Você tem ideia de como é sortudo por ainda estar na faculdade? Na verdade há prós e contras, como tudo na vida. Mas se você já fosse arquiteto…

  1. Você seria demitido se chegasse ao escritório no mesmo horário que chega na aula de projeto;
  2. “Perdi o ônibus”, “não entendi o que você tinha pedido”, “meu cachorro comeu o projeto” e “pensei que fosse para amanhã” são desculpas que não poderão ser usadas com seu cliente;
  3. Você teria que tomar banho… todo dia!
  4. Você não poderia fazer projetos do jeito que você quiser… nunca!
  5. Você teria que explicar ao seu cliente porque projetou um escritório todo de vidro, incluindo paredes e o chão;
  6. Seu cliente não é seu professor, e está pouco se lixando se o teu projeto é meio Norman Foster, meio Calatrava e simboliza as injustiças da vida, numa leitura minimalista do espaço onde o brutalismo dos materiais revelam toda sua expressão;
  7. Seu projeto teria que respeitar a lei da gravidade, considerar que o sol nasce no Leste e se põe no Oeste,  levar em conta que nem todo terreno é plano e ter um custo próximo ao razoável.
  8. Você não teria que assistir àquela aula chata onde sempre dorme, porém teria que participar de várias reuniões – e ficar acordado;
  9. Você teria que detalhar todos aqueles banheiros do seu projeto,  e se preocupar com as instalações e acessibilidade – de verdade;
  10. Você teria que revisar todos os seus desenhos;
  11. Você teria que considerar que seu projeto tem uma estrutura, que poderá ser construído e que não pode cair na cabeça de ninguém;
  12. Você poderia ser processado por coisas que você, seu engenheiro, seu mestre de obras, seu gesseiro, seu marceneiro, seu pedreiro tiverem feito de errado;
  13. Você teria que trabalhar no CAD/Revit/Sketchup o dia inteiro, pelo tempo que seus olhos conseguissem se manter abertos;
  14. “Não consegui plotar”, “o CAD travou”, “minha colega, que está com o projeto, faltou hoje” são desculpas que não poderão ser usadas com seu cliente;
  15. Você teria que saber que Alucobond é legal, mas não da para usar em QUALQUER projeto;
Fique à vontade para contribuir com a lista!