Agora é que “a porca torce o rabo”…


Meus queridos orientandos, formandos do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unip – Brasília, colaram grau na noite de ontem. Tive a honra de ser paraninfo da turma. Abaixo uma cópia do meu discurso (na verdade um apanhado de alguns textos do blog). Parabéns, meus ex-alunos e agora colegas.

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Há cinco anos um sonho se iniciava. Vocês entravam na universidade almejando o dia em que estariam aqui neste exato momento. Ao mesmo tempo também tinha início o meu sonho de ser professor de arquitetura. Pois é, ainda tem gente que sonha em ser professor. Então não é exagero afirmar que nesta noite também completo um ciclo. É como se também estivesse me “formando” hoje.

Na arquitetura é muito comum um projeto ser feito por uma equipe. Cada um de vocês é um projeto feito a várias mãos, onde cada professor que cruzou seu caminho deu sua parcela de contribuição. A diferença é que no caso de vocês, o aluno ou o “projeto de arquiteto” é tão ou mais responsável pelo resultado final do que qualquer um de nós, professores. A cada dia que passa tenho mais consciência de que nosso papel na trajetória de um aluno limita-se em transmitir algum conteúdo e, aí está o principal, compartilhar experiências. E como somos arquitetos 24 horas por dia, nossas experiências pessoais e profissionais muitas vezes acabam se misturando.

Dirijo-me a vocês hoje pela última vez como seu professor. A partir de agora seremos colegas. Mas enquanto isso, tento pela última vez dar minha contribuição. Já que, como diz o ditado, “em arquitetura nada se cria”, tomo então a liberdade de plagiar a mim mesmo, reunindo neste momento alguns recados já passados por mim ao longo destes anos no meu blog. Sim, além de arquiteto, professor, desenhista e daltônico dá tempo de ser blogueiro. Afinal, o que se faz de meia noite às seis da manhã?

A despeito da comemoração e deste momento de transição, uma pergunta paira no ar: será que ser arquiteto é uma boa? Li uma vez que “arquitetura é uma grande profissão, mas um mau negócio”. Mas o que nos difere dos “pobres mortais”? Porque esta profissão é tão fascinante e ao mesmo tempo tão difícil de se definir? É uma ciência? é humana ou exata?

O arquiteto deve ser por definição, um curioso. Nunca limitar-se ao que lhe é apresentado, sempre procurar aprender mais, saber mais sobre qualquer coisa. Uma verdadeira esponjinha de conhecimento. Coisas aparentemente inúteis e desconexas podem ser a chave para a solução de um projeto. Sabe aquele chavão de “pensar fora da caixa”? Pois é. A diferença é que temos que projetar a caixa.

Um arquiteto tem a obrigação de estudar a história da profissão. São alguns milhares de anos concebendo e construindo espaços para funções diversas, com materiais diversos, desde que “o mundo é mundo”, ou desde que alguém teve a brilhante ideia de parar de andar a procura de comida e fincar raízes, construindo para isso um abrigo. De tempos em tempos, alguém cria uma definição genérica que permite agrupar algumas destas obras arquitetônicas em função de aspectos específicos – históricos, construtivos, econômicos, ideológicos etc. Como pensar algo novo sem a visão crítica sobre o que já foi feito?

Muito mais do que registrar construções ao longo do tempo, o estudo da história da arquitetura permite compreender o método, a motivação e, principalmente, a relação entre o mundo, a sociedade, a economia de uma época e a resposta construtiva a suas demandas. Para tanto, história, sociologia, economia, antropologia, filosofia, são temas, mesmo que periféricos em alguns casos, fundamentais à nossa formação. Então está claro. Arquitetura está na classe das ciências humanas e sociais!

Mas a matemática, física, resistência dos materiais, topografia estão aí para equilibrar o jogo. Sem as ciências exatas nunca sairíamos do campo das elocubrações teóricas (não menos importantes) para o objeto que constitui a materialização do nosso trabalho: o espaço construído. A relação com nossos irmãos engenheiros só é harmônica e produtiva se “falarmos a mesma língua”. O engenheiro, um especialista, deve ter no arquiteto, o generalista, a base para que o construir seja mais do que um fim em si mesmo. A forma, a função, a relação com o entorno, com o terreno, com o ambiente e, principalmente, com as pessoas decorrem das soluções saídas da prancheta e da misteriosa “cuca” do arquiteto e urbanista.

“O arquiteto projeta e o engenheiro constrói”. Simplório demais, até ofensivo – para ambos. Fazer arquitetura começa muito antes do primeiro risco no papel (e por favor, nunca abandonem o papel). Fazer arquitetura é compreender, e às vezes traduzir, as expectativas do cliente, entender o terreno e a cidade, perceber que o que se pretende construir tem um papel maior no tecido urbano, saber que o espaço “não-construído” é tão importante quanto o edifício. Fazer arquitetura é saber ver e criar espaços bem construídos, de forma econômica funcional e, de quebra, deixar tudo isso bonito. A beleza das cidades é nossa responsabilidade. Tudo isso torna o nosso trabalho um pouquinho mais complicado do que “desenhar uma planta”, afinal, quem faz planta é jardineiro. E nada contra os nobres profissionais da jardinagem.

Se você dominar tudo isso, se for um iluminado, ungido pelos céus e predestinado a compartilhar com o mundo seu talento e genialidade, restarão ainda aquelas habilidades que não são ensinadas nos bancos da faculdade. Como se relacionar com o cliente, essa verdadeira esfinge, esse ser misterioso que veio ao mundo para viabilizar e ao mesmo tempo comprometer o seu caminho para a imortalidade? Como transformar uma profissão tão complexa num negócio próspero? Como gerir um escritório, administrar custos, coordenar e liderar pessoas com formações tão diversas?

Artista, administrador, construtor, desenhista, visionário, maluco… ARQUITETO! Parabéns por este dia. Nunca se esqueçam de que um verdadeiro arquiteto passa cinco anos na faculdade, mas começa sua formação hoje, assim que entra em contato com o mundo, e nunca se “forma”. Aprendemos sempre, até o fim.

Quero agradecer cada minuto que tive o privilégio de dividir com vocês nesses 5 anos. Neste tempo descobri que participar da formação de um arquiteto é tão ou mais importante do que criar edifícios. Se ao edificarmos algo deixamos nossa marca no espaço urbano, tenho certeza que eu e meus colegas deixamos nossa marca na formação de cada um de vocês, futuros colegas.

Como contribuição, deixo minha convicção de que o que faz um bom arquiteto é uma boa formação cultural, tão importante quanto a técnica. Muito mais do que uma universidade ou um professor, o que deve movê-los é a paixão pela profissão, a inquietude própria da mente maluca de quem cria espaços onde só existe o vazio.

Materializamos sonhos. Vivemos disso. Cada um de vocês é a materialização do meu sonho em formar arquitetos muito melhores do que eu jamais serei.

Obrigado!

4 comentários sobre “Agora é que “a porca torce o rabo”…

  1. Lindo. Emocionante. Esclarecedor. Comemorativo!
    Belíssimo discurso, professor. Sinto-me honrado em fazer parte da sua turma de amigos e interlocutores.
    Parabéns aos formandos. Que desfrutem de uma carreira próspera e brilhante.

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