Trabalho de equipe


Não sei se vocês sabem, mas sou daltônico. O pior é que, não bastasse as dificuldades inerentes à esta condição herdada do meu grande avô Clovão, resolvi ser arquiteto. Basicamente, sou contratado para dizer aos meus clientes se fucsia combina com fendi, ou se off-white está fora de moda. Logo eu, que sempre me dei por satisfeito quando acertava as 12 cores da caixa de lápis Faber-Castell. Poderia me limitar a apregoar os benefícios do branco, da limpeza das formas puras, alvas como a neve, limpas de todas as amarras cromáticas que enlouquecem quem um dia ousou abrir aquela ferramenta de tortura chamada “catálogo de cores”.

Estudo preliminar para um café em andamento. Imagem: Marcelo Aquino

Há alguns dias dei uma entrevista a um jornal aqui de Brasília sobre a “vida de daltônico”, principalmente dentro da minha profissão. Havia perdido a noção da curiosidade que esta condição desperta. Me senti quase um Beethoven compondo ao piano sem ouvir o que tocava (guardadíssimas as devidas proporções). Acontece que às vezes até me esqueço que sou um color blind (adoro a secura do inglês, apesar de não ser exatamente um “cego de cores”. Talvez estrábico ou míope de cores fosse melhor). Ao responder as perguntas da entrevista percebi que tenho uma vida perfeitamente normal. tenho até o privilégio de fazer graça desta deficiência.

Estudo preliminar para uma loja Imagem: Marcelo Aquino

Como então um daltônico consegue indicar ou sugerir cores para seus clientes? Aí vai o segredo. Combinação de cores básica é igual a assobiar uma melodia. Posso não saber cantar, mas uma combinação de tons de memória dá pra soprar entre meus lábios. É um verdadeiro trabalho de equipe. Fazendo um projeto para um café, tinha a exata imagem do que eu queria para os revestimentos. Fui passando as instruções para meu estagiário-braço direito e esquerdo Marcelo Aquino, que cuidava de aparar as arestas. Queria um vidro cor café e as paredes chocolate. Se me pedirem para apontar a cor chocolate numa loja de tintas provavelmente eu vou acabar escolhendo um verde-escuro ou um marrom-piriri. Mas na minha cabeça eu sabia exatamente o efeito que queria. Aí que entra o Marcelo e suas maquetes eletrônicas. Simulamos as idéias que eu tenho e peço para alguém “normal” dar uma olhadinha, só para garantir.

Sem falar que minha sócia, no trabalho e na vida, felizmente não é daltônica, o que ajuda bastante. E assim continuo fazendo meu trabalho, colorindo o mundo com as cores que eu acho que vejo, sempre consultando a turma que trabalha comigo, por que prudência e canja de galinha…

2 comentários sobre “Trabalho de equipe

  1. Olá.
    Gostaria de partilhar um projecto inovador e inclusivo: ColorADD – sistema de identificação de cores para daltônicos.
    Este projecto foi desenvolvido pelo designer português Miguel Neiva e pretende oferecer aos daltônicos independência aquisitiva,
    uma mais fácil integração social em situações que a opção e escolha da cor é relevante e a minimização do sentimento de perda gerada pela deficiência, com o consequente aumento de bem-estar e autoconfiança.
    O Miguel Neiva vai participar no festival Virada Digital para apresentar o ColorADD
    Para ter mais informações o site http://www.coloradd.net ou a página do ColorADD no facebook
    Assistam também à participação do Miguel Neiva no tedX em São Paulo: http://www.youtube.com/watch?v=apT4qG6muEY

    Suzana

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