CÓDIGO FAZ DALTÔNICOS IDENTIFICAREM CORES


Link original: http://casavogue.globo.com/design/color-add/

Como escolher uma peça de roupa para vestir ou comprar? O que responder ao filho que pede o lápis verde para pintar a árvore? Como interpretar o mapa do metrô se as linhas são representadas por cores?

Para a maioria das pessoas, essas questões podem parecer um tanto irrelevantes. Mas, para 10% dos homens do planeta – 350 milhões de indivíduos, 9 milhões apenas no Brasil – o daltonismo é um problema que afeta o dia a dia, criando situações de constrangimento e, muitas vezes, de privação e perda de oportunidades.

Com o objetivo de ajudar essa população, o designer português Miguel Neiva, 42 anos, desenvolve desde 2008 o código ColorADD, um sistema universal capaz de incluir os daltônicos em situações rotineiras pela identificação das cores a partir de diferentes formas que, combinadas, representam outras cores. Aplicável em qualquer parte do mundo, independentemente de língua ou religião, o ColorADD já é usado – especialmente em Portugal – em materiais didáticos, lápis de cor, tintas, vestuário e calçados, sinalização de hospitais, metrô e consumo de energia.

Em processo de implantação no Brasil, o ColorADD também tem aplicações em design, decoração, arquitetura e artes plásticas. A Casa Vogue falou com Miguel Neiva para entender melhor sobre o trabalho dele.

De onde surgiu a ideia do código ColorADD? Conhece algum daltônico ou é daltônico?

O projeto surgiu da minha tese de mestrado em design e marketing, defendida em 2008 na Universidade de Minho. Queria desenvolver algo que tivesse uma vida útil e fosse capaz de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para essa escolha, procurei algo que se relaciona com minha área de formação acadêmica – design de comunicação – e com uma forte correspondência aos têxteis. Aí me lembrei de um colega de escola, daltônico, que frequentemente aparecia com uma meia de cada cor, e dos embaraços que isso lhe trazia. Mesmo nascendo daltônico – uma limitação majoritariamente de transmissão hereditária –, mais de 90% dos daltônicos precisam de ajuda para comprar roupa; mais de 40% sente dificuldade de integração social; e quase 50% já sentiu constrangimento ou vergonha pelo fato de a cor escolhida não ser a melhor. Surgiu, então, a ideia de desenvolver um código gráfico para os daltônicos identificarem as cores.

Explique-nos o que é e como funciona o ColorADD.

Ao estudar diversos códigos e símbolos universalmente usados, eu observei que a cor e a forma são as características que garantem a universalidade deles. No caso do ColorADD, então, a forma teria de identificar a própria cor. Decidi recuperar o conceito de adição de cores. Todos nós tivemos na escola uma caixa de guaches na qual tínhamos as 3 cores primárias, mais o branco e o preto. Mesmo não identificando corretamente as cores, o daltônico aprendeu a misturá-las e a fazer outras cores. Atribuí a cada uma dessa três cores primárias um símbolo gráfico que a representasse – o daltônico apenas necessita ser orientado para a cor. Ou seja, do mesmo modo que nos ensinaram a misturar o azul com o amarelo para obter o verde, este código permite associar o símbolo que representa o azul ao símbolo que representa o amarelo para identificar o verde. O branco e o preto surgem para orientar as tonalidade claras e escuras. Basta memorizar cinco símbolos para o daltônico conseguir identificar todas as cores.

Já havia, antes do ColorADD, algum código para facilitar a vida dos daltônicos?

Não! Depois de várias pesquisas, não encontrei nada que pudesse resolver a questão. Inclusive, no início da investigação, tive muita dificuldade de encontrar daltônicos. Não existe uma base de dados estatísticos, nada. A própria palavra daltonismo sempre teve uma conotação depreciativa. Para a pesquisa, lancei um desafio, por todos os endereços de e-mail que tinha, solicitando contatos de daltônicos que estivessem disponíveis para responder um questionário que garantia, obviamente, anonimato. Deu certo. Em pouco mais de três meses, eu tinha um número significativo de daltônicos de diversos países disponíveis para participar do estudo. Curiosamente hoje, passados mais de três anos, mantenho contato com várias dessas pessoas, que têm acompanhado e até participado de ações de divulgação do projeto.

De que forma o ColorADD pode ser aplicado além da comunicação visual, como, por exemplo, na decoração? E na arquitetura? E nas artes plásticas?

Um dos grandes objetivos foi procurar a transversalidade e universalidade deste código. A capacidade de comunicação do ColorADD é muito vasta, abrangendo todas as áreas que utilizam a cor. A aplicação do sistema é possível em qualquer parte do mundo, independentemente de sua localização geográfica, cultura, língua, religião, bem como das diferentes vertentes socioeconômicas. Na decoração, na arquitetura, bem como nas artes plásticas, o projeto já se encontra implementado. Ele ajuda a diferenciar catálogos de tintas, cerâmicas e tecidos, no caso da decoração. Na arquitetura, é empregado em projetos de acessibilidade, como, por exemplo, em estacionamentos, percursos em museus etc. Até nas artes plásticas, onde um artista português realizou trabalhos onde substituiu a cor pela simbologia ColorADD.

Onde mais o sistema já está sendo aplicado?

O código ColorADD encontra-se já aplicado em suportes e produtos tão variados como materiais didáticos, lápis de cor, tintas, vestuário e calçado, orientação e sinalização de hospitais, medicamentos, linhas de metrô, sistemas de monitoramento de consumo energético, orientação e sinalização de espaços públicos, ecopontos, plataformas digitais e muitas outras áreas nas quais estão se desenvolvendo estudos de implementação. O projeto funciona por meio do licenciamento de utilização, sendo que todos os custos inerentes à sua contratação são baixos, ajustados à realidade de cada empresa ou entidade que o queira utilizar.

Há alguma aplicação no Brasil?

De fato, o Brasil foi o país em que apostei para avançar com a internacionalização do código, por uma série de fatores. Mas todo este processo tem apenas dois meses e meio. E neste período já estive por duas vezes no país – São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília – em conferências, apresentações e reuniões com diversas entidades do Governo, dos Estados, da organização dos grandes eventos que se avizinham, das entidades privadas e empresas de diversas áreas. Todas elas com a manifesta intenção de utilizar o ColorADD como elemento inclusivo e acessível para todos. Estou seguro de que, durante os primeiros meses de 2012, o Brasil se revelará como o maior utilizador do ColorADD – existem no Brasil quase 9 milhões de daltônicos.

(Clique em qualquer uma das imagens para vê-las ampliadas em galeria)

2 comentários sobre “CÓDIGO FAZ DALTÔNICOS IDENTIFICAREM CORES

  1. Olá Ricardo, parabéns pelo material, desde criança sempre passei por momentos engraçados do tipo… na loja pedi o chapéu azul e na verdade era lilás esse é o maior dos equívocos em que dependendo do tom acaba até sendo chamado de boiola rss.
    Já tive confusões com uns tipos de verdes em que eu confundo com cinza ai botando lado a lado vejo que não é mas na primeira vista me aparece como cinza.

    E a renovação da carteira de motorista, existem testes em que o vermelho parece marrom e dai acaba confundindo tudo. Sem contar que em alguns testes já vi tons de amarelo já me deixaram bem perdido.
    Vejo vermelho e verde muito bem desde que estejam em intensidade bem definidas.

    Lembro que descobri o daltonismo no segundo grau quando ao estudar mapas de geografia fui reclamar aos meus pais de que o mapa do livro estava com todas as legendas da mesma cor. Neste momento minha mãe se lembrou que na primeira série cogitaram que eu tinha problema mental por não saber ver as cores, ai já dá pra ver a qualificação dos nossos profissionais de educação há mais de 30 anos .

    Vc postou um mapa das estações de metro, seria interessante por pontos, triângulos. riscos dentro de cada canal das estações ai até quem vê só preto e branco vai identificar sem qualquer problema.

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